sábado, abril 25, 2009

Era 5ª feira. Tinha duas horas de Trabalhos Manuais logo a começar o dia e tocava-me a mim levar o rádio para ouvirmos nessas duas horas. A professora era porreira e achava que a música nos tornava mais produtivas.
Claro que ia ouvindo música durante todo o caminho. Tinha que atravessar a cidade porque só havia uma escola e ficava no lado oposto ao da minha casa. Ninguém achava que isso fosse um problema, e claro que ia a pé . Como tinha amigas que também viviam na zona fazíamos o caminho juntas e nesse dia já estavamos fartas de ouvir sempre uns tipos a ler um comunicado qualquer que não percebíamos a que se referia.
Quando chegámos à escola o dia estava normal. Entrei na sala e disse à professora que tínhamos que ouvir música em espanhol (ela não gostava, obrigava-nos a ter o rádio numa emissora portuguesa) porque as rádios portugueses que se conseguiam apanhar não passavam música, estavam sempre a ler um comunicado do MFA.
Ainda posso ver a cara dela...abriu muito os olhos e pediu que nos calássemos para ouvir.
Depois saiu a correr da sala e voltou com o director.
A partir daí instalou-se a confusão. Os professores andavam agitadíssimos de um lado para o outro e nós felizes da vida porque ninguém estava a ter aulas. O melhor veio a seguir...mandaram-nos para casa.
Nenhum professor tinha ouvido rádio nesse dia, a maior parte iam também a pé para a escola e pelos vistos não tinham o hábito de ligar o rádio pela manhã...e foi graças ao meu rádio pequenino e de cor lilás (sim ainda me lembro da cor) que a revolução chegou à minha escola.
Claro que a maior parte de nós não foi para casa...fomos para a frente dos quartéis que havia na cidade para ver se as tropas iam sair...
Nenhum de nós tinha, na altura, noção do que estava a acontecer...

6 comments:

elvira carvalho disse...

Onde estava eu no 25 de Abril? A morar, na Av. de S. Paulo, frente há igreja Ѫ Srª de Fátima, aquela mesma onde o Papa esteve o mês passado. E a trabalhar como secretária (lá chamavam assim) no Colégio dos Irmãos Maristas. Era eu a responsável pela secretaria, e por tudo o que passava por ela. No dia 25 de Abril, cheguei ao emprego e liguei o rádio e só se ouviam, músicas clássicas. Nada de notícias. Quando os alunos começaram a chegar acompanhados dos pais, (a grande maioria, eram militares) alguns contaram aos irmãos que se falava, de uma revolta na metrópole(também era assim que se designava Portugal, pelos residentes, excepção feita pelos nativos que chamavam a Portugal, o puto, por ser muito pequeno em relação a Angola).
Tentei telefonar à minha irmã que trabalhava em Lisboa, na Almirante Reis, mas não consegui. Durante todo o dia o tentei e nunca o consegui. À noite, a rádio interrompeu a música e deu a informação do que tinha acontecido, com uma informação curta e pouco esclarecida, como se temessem que a revolta ainda fosse esmagada e voltasse tudo ao mesmo. Só a meio do dia 26 se soube realmente o que tinha acontecido.
As coisas não seriam assim hoje, mas naquela altura Angola ainda não tinha televisão, e os jornais e rádio só emitiam aquilo que a PIDE deixava.
Depois foi mais de um ano de uma vida de guerra. Musseques incendiados, mortes, recolheres obrigatórios, todo o espaço ao ar livre do Colégio, foi ocupado por tendas militares, onde dormiam os residentes dos musseques incendiados e saqueados. Chegaram a estar mais de mil pessoas incluindo crianças, a maioria de raça negra, mas também alguns brancos. A tropa mandava para lá as refeições, e eu e os irmãos, fazíamos a distribuição. É que o Irmão Santini, director do Colégio, era também o mais alto representante da Cáritas em Luanda.
Daí que íamos também a alguns musseques, especialmente ao Cazenga, para levar ajuda àqueles que lá estavam.
Como vê eu não vivi, nada daquilo que vocês lembram com saudade. E quando vim já foi em Agosto de 75, pouco antes da independência de Angola que foi em Novembro.
Um abraço e bom fim de semana.

fj disse...

Eu então estava de cama...a espera dos bombeiros que me levassem para o hospital...ia nesse dia tirar o gesso q tinha na perna...foram eles q nos diissram que não era otivo para ir naquele dia ao hospital. Por isso e pela idade, nunca soube muito bem...como foi o 25 de abril na rua..apenas ouvi pelo radio...clube Português.

As SICs e TVIs naquela altura ainda não tinham jornalistas.

Um Abraço, Dina e trás boas noticias mais logo.

entremares disse...

Onde estava eu naquele dia ?
Pois... a caminho da escola, na pacata cidade agora chamada de Kuito ( naquele dia, ainda se chamava Silva Porto ). E pronto... não houve aulas, vá de voltar a casa.
A tarefa seguinte foi ir comprar o jornal, o "Noticias de Angola", e observar o burburinho que se gerou entre a família, os pais dos amigos, tudo em agitação...

Para mim, e para todos os que na altura tinham aqueles 12 anos, tudo não passou de dia sem aulas, coisa bem rara naqueles tempos...

lilipat2008 disse...

Bem, eu nesse dia nem planeada estava, quanto mais nascida...mas adoro ouvir/ler estas histórias...devem ter sido dias super agitados e para as crianças ainda mais, porque nem percebiam o que se passava...:)

bjitos

fj disse...

olha, afinal parece que há um pequeno problema lá, com o numero 1.

Eu não tenho nada a ver com isso, nada mesmo.
Beijinhos

Tite disse...

Que raio!!!
Tenho tido tanto que fazer que nem percebi que tinhas um post aqui tão interessante quanto este.

Eu, que já era casada e tinha dois filhotes de 4 e 1 ano, nem sequer me apressei para sair de casa. A minha sogra que normalmente tinha e tem insónias, levava a noite a escutar o seu pequeno rádio (ignoro se era lilás como o teu) e assim que percebeu o que se estava a passar ligou para o filho a avisá-lo que não saísse de casa porque estava em marcha uma revolução e poderia ser perigoso.
Claro que foi uma total agitação.
Claro que não fomos ao trabalho eu e o meu marido.
Claro que ele não ficou em casa. Era superior às suas forças saber que algo de muito importante para as nossas vidas se estaria a passar e a Rádio e a TV só transmitirem músicas (e que músicas!!! as revolucionárias que só eram ouvidas secretamente ou fora do nosso Portugal) e comunicados.
Foi um dia passado entre a grande expectativa, o nervoso de quem queria que tudo desse certo dessa vez e a impossibilidade de ir para a rua por ter duas crianças comigo e que queríamos viessem a beneficiar da mudança que se avizinhava.
O resto... já todos sabem. DEU CERTO!!!!

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