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quinta-feira, junho 19, 2008

Nasci no Alentejo, no monte da Estalagem a poucos kms de Portalegre, cidade do Alto Alentejo cercada de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros, como a descreveu José Régio.

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

(José Régio)

O que é que isto tem a ver com melancias, dirão vocês, nada e tudo.
Tive uma infância feliz correndo e brincando por aqueles campos alentejanos. Era o "descuido" lá de casa, a mais nova de cinco irmãs todas já crescidas. Como companheiro de brincadeiras tive o meu sobrinho, filho da minha irmã e mais velho que eu 4 meses, mas não pensem que por ser rapaz e mais velho ele tinha direito a mandar em mim. Nunca.
O meu pai trabalhava na agricultura. Segundo a minha mãe não havia em nenhum lugar melões ou melancias mais doces que as semeadas por ele.
Eu adorava melancias. Ainda hoje é uma das minhas frutas preferidas, embora já não encontre melancias tão doces como nessa altura.
Quando chegava o Verão era uma maravilha para mim...tanta melancia à minha disposição.
O ritual era sempre o mesmo. Acordávamos, comíamos (isso de tomar o pequeno-almoço é agora) e tínhamos um dia inteiro à nossa frente para brincarmos por aqueles campos fora. Mas ainda a manhã estava a começar e já a minha mãe tinha à frente dela dois "gaiatos" todos sujos por terem estado a comer melancia.
Toca a lavar e a vestir roupa limpa e a esconder todas as facas para que não se repetisse outra vez a gracinha.
Limpinhos? Pois sim...nem 10 minutos.
Não havia facas mas isso não era impedimento, começámos por deixá-las cair para as rachar mas a pouco e pouco fomos refinando o método e por fim conseguía fazer-lhe um buraco por onde metíamos a mão, retirávamos a polpa e voltávamos a colocar as melancias no mesmo sítio com o buraco para baixo para que não dessem por isso.
Santa ingenuidade...bastava olhar para nós. A roupa que há tão pouco tempo tinha sido mudada estava de novo imunda devido ao banquete de melancia que tínhamos tido.
-O quê!!!!... já estão outra vez todos sujos? Já vão ver o que vos acontece!!
Era a deixa para desatar a fugir para bem longe antes que a minha mãe me apanhasse e me sacudisse as moscas (eram atraídas pelo doce da melancia).
Por norma escapava-me sempre mas o palerma do meu sobrinho assim que ouvia aquilo começava logo a choramingar e era apanhado. Esqueci-me de vos dizer que era uma maria-rapaz. Tenho estórias (ou será histórias? acho que uns defendem que o termo é correcto e outros que não por isso escolham) do arco da velha em que o meu sobrinho é sempre o bombo da festa. Pobrezinho, acho que até hoje não recuperou dos traumas duma infância rodeado de mulheres. Mas essas ficam para outro post.
Este era dedicado às melancias...e lembrei-me disso quando li o texto duma grande e querida amiga.
D. Maria José, junto-me a si na reivindicação.
"Reivindico, pois, fama e glória para essa milagrosa criação da generosa Natureza."

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